Alcíone comenta este trecho sob a sua iluminada interpretação…
” … a esperança em Cristo será sempre um refúgio indispensável na hora da partida, mas a advertência apostólica nos convoca a ilações mais graves. Lembremos os perversos que aceitam Jesus na hora extrema. Muita gente, portadora de crimes inomináveis, faz ato de fé no leito de morte. Enquanto têm saúde e mocidade, vivem ao léu entre caprichos e desregramentos; mas tanto que o corpo quebrantado lhes dá ideias de morte, alarmam-se e desfazem-se em rogativas a Deus.Podem, criaturas que tais, esperar de pronto, imediata, a glória do Cristo? E os que se sacrificam nas áreas do dever enquanto lhes resta uma partícula de forças? Claudicaria a justiça, em suma, se afinal a virtude se confundisse com o crime, a verdade com a mentira, o labor com a ociosidade. Certo que será sempre útil recorrer à misericórdia do Senhor, ainda que manchados até aos cabelos, bem como acreditar que, para toda enfermidade, haverá remédio adequado. Penso, porém, que a assertiva de Paulo não se refere ao termo da vida corporal, fenômeno natural e apanágio de justos e de injustos, de piedosos e de ímpios. Bafejado pela divina inspiração, o amigo do gentilismo aludiu, por certo, à morte da “criatura velha”, que está dentro de todos nós. É a personalidade egoística e má que trazemos conosco e precisamos combater a cada dia, para que possamos viver em Cristo. A existência terrestre é um aprendizado em que nos consumimos devagarinho, de modo a atingir a plenitude do Mestre. No plano da própria materialidade, poderemos observar esse imperativo da lei. A infância, a mocidade e a decrepitude, em seu aspecto de transitoriedade, não podem representar a vida. São fases de luta, demonstrações da sagrada oportunidade concedida por Deus para nos expurgarmos das grosserias, dos sentimentos, da crosta de imperfeição. Costuma-se dizer que a velhice é um ataúde de fantasias mortas, mas isso apenas se verifica com os que não souberam ou não quiseram “morrer” com o Cristo para alcançar a fonte eterna da vida gloriosa. Quem se valeu da possibilidade divina tão-somente para cultivar ilusões balofas, não poderá encontrar mais que o fantasma dos seus enganos caprichosos. A criatura, porém, que caminhou de olhos fixos em Jesus em todos os pormenores da tarefa, essa, naturalmente, conquistou o segredo de viver trinfante acima de quaisquer circunstâncias adversas. Jesus palpita em seus atos, palavras e pensamentos. Seu coração, na pobreza ou na abastança, será como flor de luz, aberta ao sol da vida eterna!…
As palavras do Mestre estão cheias de apelos maravilhosos, de apelos divinos, de mensagens do Céu. Basta que nos esforcemos por lhe ouvir a voz e receber os dons.”
Livro Renúncia, Parte 2, Cap. 3, Emmanuel – Chico Xavier





