Madalena pergunta a padre Damiano o que ele pensa da fé…
- A fé? – obtemperou – Como adquirí-la, padre? De mim, a entendo como um estado superior, conseguido na oração. Tudo tenho feito por encontrar alívio e refúgio na confiança em Deus. No entanto, sinto-me bem longe a paz íntima que tanto ambiciono.
- Não poderemos criar os valores da fé enquanto nos sobeje a inquietação, e acredito que nossas relações com a Divindade devem ser as mais simples possíveis. Quanto a mim, considero que cada dia é uma oportunidade renovada para o labor de nossa redenção. Resumo as minhas preces à vigília da manhã, na qual procuro a inspiração do Evangelho ou dos livros que nos suscitam desejos de perfeita união com o Cristo e ao louvor da noite, quando busco examinar os ensejos de serviço ou testemunhos que o Senhor me facultou – respondeu o padre solícito.
Ela não compreendeu a contento e interregou:
-Mas… Como?
-Toda leitura edificante derivou da Providência por intermédio de seus mensageiros, em nosso socorro; com as duas advertências e conceitos sábios e preciosos, faço a vigília matinal e à noite rendo graças ao Pai, em consciência pelos favores que me foram dispensados. Na vigília, estabeleço propósitos redentores; e no exame da noite julgo-me a mim mesmo, para verificar onde se cristalizaram minhas maiores fraquezas a fim de emendá-las no dia imediato. O mundo, a meus olhos é uma vasta oficina onde poderemos consertar muita coisa, mas reconhecendo que os primeiros reparos são intrínsecos a nós mesmos.
Madalena ainda gostaria de ouvir mais daquele sábio padre e perguntou:
- Se dás tanto valor ao esforço espiritual da manhã e às meditações da noite, como encarar o dia?
- Creio que entre a vigília e o louvor está o trabalho que o Senhor nos deferiu. O dia constitui o ensejo de concretizar as intenções que a matinal vigília nos sugere e que à noite balanceamos.
Uma outra senhora presente no recinto indagou:
- Padre Damiano, como proceder, então, nos dias em que as circunstância nos impeçam de trabalhar? Estaremos fugindo ao ensejo que Deus nos concedeu?
O religioso compreendeu o móvel da pergunta e tentou explicar:
- Acreditas, então, que só aos braços foram conferidas as atribuições de serviço? Os ouvidos trabalham quando ouvem, os pés quando caminham. A língua esforça-se, a inteligência atua. Quando cessam as possibilidades de ação ao exterior, há no íntimo da criatura todo um mundo a desbravar. Chego a refletir que, às vezes, a enfermidade atormenta a criatura para que ela se volte para dentro de si e aproveite a oportunidade, no esforço laborioso de sua renovação.
Renúncia, Parte 1, Cap. 6, Emmanuel – Chico Xavier





