Alcíone é interpelada por sua patroa, Suasana, a respeito do remorso que sentia ao ler os ensinamentos de Jesus. A nobre e humilde benfeitora esclareceu tranquilamente…
- Sempre estudamos o Evangelho, mas, de minha parte devo confessar a dificuldade em me adaptar aos ensinamentos… Sinto-me tão pecadora, tão humana, que cada lição me soa como rigorosa censura. Por que experimento, assim, as santas narrativas como dilacerantes acusações? – Perguntou Susana, patroa de Alcíone.
Alcíone fitou-a com olhos muito lúcidos e esclareceu:
- Tais impressões devem ser passageiras. O Evangelho é mensagem de salvação, nunca de tormento. Na realidade, conhecemos a extensão da nossa indigência e o grau das nossas fraquezas; mas a misericórdia divina restaria imota sem as nossas quedas e dolorosas necessidades. O cristianismo jamais será doutrina de regras implacáveis, mas sim a história e a exemplificação das almas transformadas com Jesus, para a glória de Deus. Se as lições do Mestre apenas nos oferecessem motivos de consolação, onde estariam as grandes figuras evangélicas de Maria Magdalena, Paulo de Tarso e tantas outras? No entanto, a pecadora transformada foi a mensageira da ressurreição; o inflexível e cruel perseguidor convertido recebeu de Jesus a missão de iluminar o gentilismo.
- Por que terei aprendido a virtude e não a cultivo a rigor? – prosseguiu Susana com suas indagações – E, com tais dúvidas íntimas, passo a analisar as criaturas com profundo pessimismo, chegando a crer que a humanidade, de modo geral, vive negando Jesus a cada momento.
Alcíone, que prestava especial atenção aos conceitos expendidos, obtemperou:
- Por infelicidade nossa, é, de fato, enorme a bagagem das nossas fraquezas neste mundo, mas, se o Pai não desanimou e nos oferece, diariamente, ensejo de nos levantarmos para o seu amor, por que haveremos de viver em descrença contumaz? Viver sem esperança é o pior de todos os males. Quando nos preocupamos sinceramente com a iluminação espiritual, compreendemos a significação de todas as coisas. A própria miséria humana tem o seu lugar e a sua expressão educativa. Antes de tudo, é essencial refletirmos na extensão da bondade do Mestre. Lembramos que Pedro o negou três vezes na hora mais cruel; que Tomé duvidou da sua sabedoria e misericordioso poder, e, nem um nem outro foi jamais expulso da sua divina presença. O mundo tem inúmeros criminosos, exploradores, ociosos e devassos, mas tudo isso deve ser examinado por um prisma diferente. O pecado é moléstia do espírito. No excesso da alimentação, na falta da higiene, no desregramento dos sentidos, o corpo sofre desequilíbrios que podem ser fatais. O mesmo se dá com a alma, quando não sabemos nortear os desejos, santificar as aspirações, vigiar os pensamentos. Sempre acreditei que as enfermidades dessa natureza são as mais poderosas porque exigem remédio de mais dolorosa aplicação.
Livro Renúncia, Part 2, Cap. 3, Emmanuel – Chico Xavier






São necessários anos para fazer um médico medíocre, três quartos da vida para fazer um sábio; como pretender, em algumas horas, adquirir a ciência do infinito? Portanto, não nos enganemos: o estudo do Espiritismo é imenso, toca em todas as questões da metafísica22 e da ordem social, é todo um mundo que se abre diante de nós. (livro dos espiritos – introdução)