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Madalena prosseguia suas interrogações ao bondoso padre:
- Necessito expor minhas dúvidas mais íntimas. Não teria Deus concedido ao mundo a faculdade de rezar, a fim de que a alma humana aprendesse a pedir? Sempre conheci essa manifestação do sentimento como rogativa. Considero, entretanto, que, se toda a nossa atividade religiosa estivesse circunscrita aos atos precatórios, não passaríamos, neste mundo, de uma assembléia de mendigos. Que dizer do homem que reclamasse, de mãos postas, o manjar do céu, somente por reter o suor na semeadura do seu quintal? Poderá alguém insistir na obtenção da verdadeira paz, quando ainda disputa a ferro e fogo a posse de bens perecíveis? Chegará alguém à esfera dos anjos quando ainda não chegou a ser homem?
- Naturalmente que devemos apelar para o Céu, mas, no interpretar a prece como rogativa, suponho que não devemos ir além do “Pai Nosso”, porque, acima de tudo, julgo que a oração deve ser um esforço para nos melhorarmos. Deus nos procura a todo momento e o ato devocional será, então, tarefa incessante do espírito, apagando as imperfeições, para que o Pai nos encontre.
- Mas, criaturas há que maldizem o destino – acrescentou Madalena sumamente interessada. – Como não importunar o Céu quando padecemos necessidades angustiosas? Para muita gente, a Terra não passa de odioso degredo e o corpo representa escuro cárcere.
- Não creio. Só há mendicidade em nossa alma. E no que se refere às paisagens do mundo, o próprio deserto tem a sua beleza. As estradas que pisamos estão repletas de perspectivas encantadoras. Uma folha da primavera ou um punhado de areia são documentos da glória de Deus em nossos caminhos. Quando nos referimos a regiões sombrias ou desoladas, geralmente esquecemos que elas se localizam em nosso mundo íntimo. A noção de cárcere, como a dor do remorso, nunca foram observadas no horizonte azul nem no canto dos passáros, simplesmente porque residem dentro de nós mesmos.
Livro Renúncia, Parte 1, Cap. 6, Emmanuel – Chico Xavier






