- E o sofrimento Padre Damiano? – perguntou Madalena. – Que me dizeis do problema do destino e da dor? Nosso futuro espiritual, após a morte, não está encerrado no céu, no purgatório ou no inferno, sem remissão?
O interpelado sorriu e esclareceu:
- Esta circuntância nos faz refletir na magnitude da tarefa a realizar, mas, se eu disser que minha interpretação é diferente? A morte não existe como a entendemos. O que se verifica, apenas, é uma transmutação de vida. Os teólogos suprimiram a chave simples das nossas crenças. Quando o corpo é reclamado pelo sepúlcro, o Espírito volta à pátria de origem, e como a Natureza não dá saltos, as almas que alimentam aspirações puramente terrestres continuam no ambiente do mundo, embora sem o revestimento do corpo carnal. Desde a mais remota antiguidade, os homens se comunicaram com os seus semelhantes já mortos.
…
- É extraordinário! – exclamou Madalena felicitada por novas luzes. – Quer dizer que os entes queridos, que nos antecedem no túmulo, nos esperam no limiar da outra vida, para as alegrias do reencontro!?…
- Nem sempre será indispensável partir para reencontrar…
- Por quê? – interrogou admirada.
- A vida é uma só; entretanto, as experiências são diversas. O próprio Jesus declarou aos mentores de Israel que não era possível atingir o Reino de Deus sem renascer de novo. Inferno ou purgatório são estados do espírito em tribulação por faltas graves ou em vias de penitência regeneradora.
…
- Mas será possível que se troque de corpo como se muda de vestes?
- Justamente. Só isso, minha filha, explica as profundas diferenças do caminho. Nas estradas em que buscamos a luz da salvação, encontramos os seres humanos mais díspares. Alí, deparasse-nos um homem impiedoso, detentor de sólida fortuna; acolá, debate-se um justo entre a fome e a enfermidade, que parecem intermináveis. Num mesmo lar nascem santos e ladrões. Há pais excelentes cujos filhos são indesejáveis, monstruosos. Uma via pública exibe jovens elegantes e miseráveis criaturas que se arrastam entre a doença e a dor. Poderías admitir que o Criador, magnânimo e sábio, deixasse de ser pai para ser um experimentador desalmado? Não admitamos esse absurdo teológico mas ponderemos na verdade de que se cumpre, desde agora, o – “a cada um segundo as suas obras”, dos ensinamentos de Jesus. Na obra divina, infinita e eterna, cada filho tem responsabilidade própria. A criatura se engrandecerá ou submeter-se-á ao rebaixamento, conforme utilize as possibilidades recebidas. No caminhar de cada dia, podemos observar os que ascendem, apesar dos dolorosos testemunhos; os que estacionam em receios inúteis; os que resgatam e os que contraem novas dívidas.
Livro Renúncia, Parte 1, Cap. 6, Emmanuel – Chico Xavier





