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As Leis e as Forças

A Gênese, Cap. 6, itens 8 – 11 – Allan Kardec

Se um desses seres desconhecidos que gastam a sua existência efêmera nos fundos das regiões tenebrosas dos oceanos, se um desses poligástricos, dessas nereidas – animáculos ínfimos que da Natureza conhecem apenas os peixes ictiófagos e as florestas submarinas – recebesse de repente o dom da inteligência, a capacidade de estudar seu mundo e de estabelecer, de acordo com as suas apreciações um raciocínio conjectural extensivo à universalidade das coisas, que idéia ele formaria da natureza viva que se desenvolve em seu meio e do mundo terrestre que não pertence ao campo das suas observações?
Se, agora, esse mesmo ser, por um maravilhoso efeito do poder da sua nova capacidade, chegasse a se elevar acima das suas trevas eternas e subisse à superfície do mar, próximo às costas de uma ilha repleta de vegetação luxuriante, banhada pelo Sol fecundo, fonte de um benéfico calor, que ideia ele faria então das suas teorias antecipadas sobre a criação universal? Teorias que ele logo abandonaria, substituindo-as por uma apreciação mais abrangente, mas relativamente ainda tão incompleta quanto à primeira. Esta, ó homens, é a imagem da vossa ciência inteiramente especulativa.
Então, logo que venho tratar aqui da questão das leis e das forças que regem o Universo, eu, que apenas sou como vós, um ser ignorante em relação à verdadeira Ciência, apesar da aparente superioridade que me dá sobre os meus irmãos da Terra, a possibilidade que me cabe de estudar questões naturais que lhes são proibidas na posição de terráqueos, meu objetivo é somente vos expor a noção geral das Leis Universais, sem explicar detalhadamente o modo de ação e a natureza das forças especiais que decorrem destas leis.
Existe um fluido etéreo que preenche o espaço e penetra todos os corpos. Esse fluido é o éter ou matéria cósmica primitiva, geradora do mundo e dos seres. A ele são inerentes as forças que presidiram às transformações da matéria, às leis imutáveis e necessárias que regem o mundo. Essas forças múltiplas, indefinidamente variadas segundo as combinações da matéria, localizadas segundo as massas, diversificadas em seus modos de ação segundo as circunstâncias e os meios, são conhecidas na Terra pelos nomes de gravidade, coesão, afinidade, atração, magnetismo e eletricidade ativa. Os movimentos vibratórios do agente são conhecidos pelos nomes de som, calor, luz, etc. Em outros mundos, elas se apresentam sob outros aspectos, oferecem outras características desconhecidas na Terra e, na imensa extensão dos céus, um número indefinido de forças se desenvolve em uma escala inimaginável, da qual somos também pouco capazes de avaliar a grandeza, tanto quanto o é o crustáceo, no fundo do oceano, de alcançar a universalidade dos fenômenos terrestres.
Ora, assim como só há uma substância simples, primitiva, geradora de todos os corpos, mas diversificada em suas combinações, assim também todas essas forças dependem de uma lei universal, diversificada em seus efeitos, que se acha em sua origem, e que, pelos desígnios eternos, foi soberanamente imposta à criação para lhe imprimir harmonia e estabilidade permanentes.
A Natureza jamais se opõe a si mesma. O brasão do Universo só tem uma divisa: unidade/variedade. Na escala dos mundos, encontra-se a unidade de harmonia e de criação, ao mesmo tempo que uma variedade infinita nesse imenso canteiro de estrelas. Percorrendo os degraus da vida, desde o último dos seres até Deus, a grande lei de continuidade se faz reconhecer. Considerando as forças em si mesmas, pode-se formar uma série cuja resultante, confundindo-se com a geratriz, é a lei universal.
Não saberíeis observar esta lei em toda a sua extensão, pois as forças que a representam no campo das vossas observações humanas são restritas e limitadas. Entretanto, a gravitação e a eletricidade podem ser consideradas como uma larga aplicação da lei primordial que impera para além dos céus.
Todas essas forças são eternas e universais como a criação. Como são inerentes ao fluido cósmico, elas agem necessariamente em tudo e em toda a parte, modificando sua ação por sua simultaneidade ou sua sucessão; predominando aqui, apagando-se mais adiante, potentes e ativas em certos pontos, latentes ou ocultas em outros, mas, finalmente, preparando, dirigindo, conservando e destruindo os mundos nos seus diversos períodos de existência, governando os maravilhosos trabalhos da Natureza em qualquer ponto que se realizassem, assegurando, para sempre, o eterno esplendor da criação.

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