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Confissão de um Pai a seu Filho Cego

Livro ‘Na Sombra e na Luz’, Parte 4, Cap. 6, Victor Hugo – Psicografado por Zilda Gama.

François nasceu cego na França no século XIX. Sua mãe falesceu durante o seu parto. Seu pai amaldiçoava sua existência até que ele se viu paralítico e financeiramente dependente do filho, que era um violinista inspirado por espíritos superiores. Foram demasiado carentes de posses materiais por toda a vida. Depois de tanto tempo no leito, imóvel, seu pai lhe fez comovente confissão…

“A dor, François, é necessária à alma, não só para arroteá-la, a fim de que nela germine a sementeira dos sentimentos elevados, como também para que não nos esqueçamos do nosso Criador. A felicidade é estéril e egoísta.
“Estou certo de que, se fora são de corpo, opulento, venturoso, faria da vida outro conceito, cometendo faltas que, certamente me acarretariam severíssimas punições. Seria ateu, indiferente ao sofrimento alheio, arbitrário, orgulhoso, e, provavelmente, ao primeiro desgosto, poria termo à vida.
“Precisamente nos instantes de suprema angústia é quando reconhecemos que uma força incontrastável nos governa, que o nosso destino o traçou uma potestade divina, que esta, entretanto, não nos esmaga com o seu ilimitado poder, mas antes nos incute idéias de libertação, de justiça, de piedade, de altruísmo. Graças à sua bondade, a nossa mente entrevê em realidade, em mundos isentos de sombras e prantos, as aspirações com que sonhamos na Terra.
“Quanto mais padecemos, tanto mais desejamos evolucionar, progredir moral e intelectualmente, marchar na senda do bem e da virtude, a fim de conquistarmos rapidamente o galardão reservado aos que triunfam do mal e das imperfeições que maculam as almas humanas.
“Bendizes: estamos remindo dívidas desde muito acumuladas. Compreendo agora que nossas vidas já estiveram entrelaçadas em existências anteriores. Ficamos jungidos uns aos outros por crimes praticados em comum. Reabilitamo-nos hoje, chorando juntos. Horrendos devem ter sido os nossos delitos, para que tão cruciante seja a nossa expiação.
“Pela dor nos vamos libertando das sombras desse passado lúgubre. Nossos crimes, como elos de bronze, nos encadearam os destinos através dos séculos. Assim unidas têm as nossas almas que caminhar, permeando todas as adversidades, por uma vereda que se nos afigura intérmina, cheia de obstáculos que iremos transpondo com o olhar fito no céu.
“Quando houvermos atingido a meta de tão dolorosa peregrinação, todos os tormentos por que passamos, confrontados com a felicidade que então fruiremos, certo nos parecerão suavíssimos.
“Marchemos, pois, meu filho, com as mão enlaçadas e com o pensamento alcandorado ao empíreo donde flui o inefável lenitivo que se chama – resignação -, o que muitas vezes temos sentido descer sobre os nossos Espíritos, como fúlgido orvalho.
“Incrédulo era eu na sobrevivência do ser, no seu destino ultraterreno e foste tu, François, que me incutiu estas transcendentes idéias que acabo de expender e sem as quais seria o mais desgraçado dos seres.
Sabes do que lembro continuamente? Do teu nascimento da quase aversão que me inspiravas. Culpava-te da morte daquela a quem adorava – tua mãe. Quantas vezes te chamei de treva! Achava-te inútil à pátria e à família. Penso agora de modo diametralmente oposto. Tens sido o nosso arrimo, serás uma glória da França, és o meu brilhante archote. Praza a Deus que ele me ilumie até o derradeiro alento.
“Assim como a estrela de Belém guiou os magos ao berço do Nazareno, tú me tens guiado para o Céu e para o Eterno.
“Abençôo-te por esse benefício, com a alma inundada de dulcíssima ventura, sentindo-a como que imersa em sutilíssima e radiosa espuma. Abençôo-te pelo bálsamo que tens espargido no meu coração tantas vezes flagelado pelos acúleos da dor! A treva é quem faz abrolhar a luz no meu Espírito. Bendito sejas, François!”

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