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Da Natureza Divina

Livro A Gênese, Cap. 2, itens 1-19 – Allan Kardec.

Não é dado ao homem sondar a natureza íntima de Deus. Temerário seria aquele que pretendesse levantar o vel que o oculta de nossos olhos, falta-nos ainda o sentido que só se adquire pela completa depuração do espírito. Mas, se o homem não pode penetrar na essência de Deus, tendo como premissa a sua existência, pode, pelo raciocínio, chegar a conhecer-lhe os atributos necessários, uma vez que reconhecendo o que ele não pode absolutamente ser, sem deixar de ser Deus, deduz daí o que ele deve ser.
Sem o conhecimento dos atributos de Deus, seria impossível compreender a obra da criação; é o ponto de partida de todas as crenças religiosas, e é, por não terem se reportado a esses atributos, como ao farol capaz de orientá-las, que a maioria das religiões errou em seus dogmas. As que não atribuíram a Deus a onipotência, imaginaram vários deuses, as que não lhe atribuíram a soberana bondade, fizeram dele um deus ciumento, colérico, parcial e vingativo.
Deus é a suprema e soberana inteligência. A inteligência do homem é limitada, uma vez que ele não pode fazer nem compreender tudo o que existe; a de Deus, abrangendo o infinito, tem que ser infinita. Se a supuséssemos limitada em um ponto qualquer, poderíamos conceber um ser ainda mais inteligente, capaz de compreender e de fazer o que o outro não faria, e assim por diante, até o infinito.
Deus é eterno, isto é, não teve começo e não terá fim. Se tivesse tido princípio, teria saído do nada. Ora, não sendo o nada coisa alguma, coisa alguma pode produzir. Ou, então, teria sido criado por outro ser anterior e, nesse caso, este ser é que seria Deus. Se supuséssemos para Deus um começo ou um fim, poderíamos, portanto, conceber um ser como tendo existido antes dele ou podendo existir depois dele, e assim por diante, até o infinito.
Deus é imutável. Se ele estivesse sujeito a mudanças, as leis que regem o Universo não teriam nenhuma estabilidade.
Deus é imaterial, isto é, a sua natureza difere de tudo o que chamamos de matéria. De outra forma não seria imutável, pois estaria sujeito às transformações da matéria.
Deus não tem uma força apreciável pelos nossos sentidos, se tivesse, seria matéria. Dizemos: a mão de Deus, o olho de Deus, a boca de Deus, porque o homem, conhecendo só a si, toma-se como termo de comparação para tudo o que não compreende. São ridículas essas imagens em que Deus é representado pela figura de um ancião de longas barbas, envolto em um manto. Elas têm o incoveniente de rebaixar o ser supremo às mesquinhas dimensões da humanidade, e daí a lhe atribuírem as paixões humanas e a fazerem dele um Deus colérico e ciumento, é só um passo.
Deus é onipotente. Se não possuísse o poder supremo poderíamos conceber uma entidade mais poderosa e assim por diante, até que se encontra o ser que nenhum outro pudesse ultrapassar em poder. Este, então, é que seria Deus. Ele não teria feito todas as coisas, e aquelas que ele não tivesse feito seriam obra de um outro deus.
Deus é soberanamente justo e bom. A providencial sabedoria das leis divinas se revela tanto nas mais pequenas como nas maiores coisas, e essa sabedoria não permite que se duvide nem da justiça nem da bondade. Estas duas qualidades implicam todas as outras; se as supuséssemos limitadas, ainda que fosse em um único ponto, poder-se-ia conceber um ser que as possuiria em um grau mais alto, e que lhe seria superior.
O fato de uma qualidade ser infinita, exclui a possibilidade da existência de uma qualidade contrária que a diminuiria ou anularia. Um ser infinitamente bom não poderia ter a mais insignificante parcela de maldade, nem o ser infinitamente mau poderia ter a mais insignificante parcela de bondade, do mesmo modo que um objeto não pode ser de um negro absoluto com a mais ligeira nuança de um branco nem de um branco absoluto com a mais pequenina mancha negra.
Assim, Deus não poderia ser ao mesmo tempo bom e mal, porque então, não possuindo nenhuma nem outra dessas qualidades no grau supremo, não seria Deus; todas as coisas estariam sujeitas ao seu capricho e não haveria estabilidade para nada. Portanto, ele só poderia, ser infinitamente bom ou infinitamento mau. Ora, como as suas obras testemunham a sua sabedoria, a sua bondade e a sua solicitude, conclui-se que, não podendo ser ao mesmo tempo bom e mau sem deixar de ser Deus, ele deve ser infinitamente bom.
A soberana bondade implica na soberana justiça, porque se Deus agisse injustamente ou com parcialidade em uma só circunstância, ou com relação a uma só das suas criaturas, não seria soberanamente justo e, consequentemente, não seria soberanamente bom.
Deus é infinitamente perfeito. É impossível conceber Deus sem o infinito das perfeições, sem o que não seria Deus, pois sempre se poderia conceber um ser possuindo o que lhe faltasse. Para que nenhum ser possa ultrapassá-lo, é preciso que ele seja infinito em tudo.
Sendo infinitos, os atributos de Deus não são passíveis de aumento nem de diminuição, sem isso não seriam infinitos e Deus não seria perfeito. Se dele se tirasse a mínima parcela de um só dos seus atributos, não haveria Deus, uma vez que poderia existir um ser mais perfeito.
Deus é único. A unidade de Deus é consequência do infinito absoluto das suas perfeições. Só poderia existir outro Deus, sob a condição de ser igualmente infinito em todas as coisas, porque se houvesse a mais ligeira diferença entre eles, um seria inferior ao outro, subordinado ao seu poder, e não seria Deus. Se houvesse entre eles igualdade absoluta, existiria, desde sempre, um mesmo pensamento, uma mesma vontade e um mesmo poder; assim, confundidos em sua identidade, não haveria, na realidade, mais do que um único Deus. Se cada um tivesse atribuições especiais, um faria o que o outro não fizesse, e então, não existiria igualdade perfeita entre eles, uma vez que nem um nem outro possuiria a autoridade soberana.
Foi o desconhecimento do princípio do infinito das perfeições de Deus que gerou o politeísmo, culto de todos os povos primitivos; eles atribuíam a Divindade a todo poder que lhes parecia acima dos poderes humanos. Mais tarde, a razão levou-os a reunir essas diversas potências em uma só. Depois, à medida que os homens compreenderam a essência dos atributos divinos, retiraram de seus símbolos as crenças que representavam a negação desses atributos.
Em resumo, Deus só pode ser Deus, sob a condição de não ser ultrapassado por nenhum outro ser, porque então o ser que o ultrapassasse seja no que for, ainda que apenas na grossura de um cabelo, seria o verdadeiro Deus. Por isso é preciso que Ele seja infinito em todas as coisas.
É assim que, comprovada a existência de Deus pelas suas obras, chega-se pela simples dedução lógica a determinar os atributos que o caracterizam.
Deus é, então, a suprema e soberana inteligência; é único, eterno, imutável, imaterial, onipotente, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfeições, e não pode ser diferente disso.

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