O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. 14, item 9 – Allan Kardec
De todas as provas, as mais penosas são as que afetam o coração; muitos suportam com coragem a miséria e as privações materiais, mas sucumbem sob o peso dos sofrimentos domésticos, magoados pela ingratidão dos seus. Como é terrível essa angústia! Mas, o que pode, nessas circunstâncias, reerguer a coragem moral senão o conhecimento das causas do mal, e a certeza de que, se há longas aflições, não há desesperos eternos, porque Deus não pode querer que a sua criatura sofra sempre? O que há de mais consolador, de mais encorajador do que o pensamento de que depende de si, dos seus próprios esforços, para abreviar seu sofrimento destruindo em si as causas do mal?
Para isso, no entanto, é preciso que o homem afaste seu olhar da Terra e não veja só uma existência; que se eleve pairando no infinito do passado e do futuro. Então, a grande justiça de Deus se revela aos seus olhos, e ele espera com paciência, porque é explicável agora o que antes, na Terra, lhe parecia monstruosidade. As feridas que recebeu não lhe parecem mais que arranhões. Nesse golpe de vista lançado sobre o conjunto, os laços de família aparecem como verdadeiramente são, não mais os frágeis laços da matéria ligando os seus membros, mas os laços duráveis do espírito, que se perpetuam, e se consolidam, ao se depurarem, em lugar de se esfacelarem com a reencarnação.
Os espíritos, cuja similitude de gostos, identidade do progresso moral e a afeição fazem com que se reúnam, formam famílias. Esses mesmos espíritos, nas suas migrações terrestres, se procuram para se agruparem, como o fazem no espaço, nascendo daí as famílias unidas e homogêneas. Se, nas suas peregrinações, momentaneamente eles são separados, mais tarde se reencontram felizes com os seus novos progressos. Porém, como não devem trabalhar somente para si mesmos, Deus permite que espíritos menos adiantados venham encarnar entre eles, para receberem conselhos e bons exemplos, com vistas ao seus adiantamento. Muitas vezes, tais espíritos tornam-se a causa de perturbações naquele meio, mas é isso que constitui a prova, e a tarefa que os outros têm que desempenhar.
Acolhei-os, portanto, como irmãos; ajudai-os, e mais tarde, no mundo dos espíritos, a família se alegrará por haver salvo alguns náufragos que, por sua vez, poderão salvar outros.





